No início da minha carreira, na indústria eletroeletrônica, vivenciei uma
experiência que mudaria definitivamente a minha forma de enxergar a engenharia
e a liderança industrial.
Tudo começou quando a Samsung Electronics decidiu instalar sua primeira fábrica em Manaus. Na ocasião, fui selecionado para integrar um grupo restrito de profissionais que seria enviado à matriz na Coreia do Sul, a fim de absorver processos, tecnologias, produtos e cultura organizacional, antes do startup da operação no Brasil.
Durante esse período, a
experiência foi muito além da transferência formal de conhecimento técnico. No
dia a dia da operação aprendíamos diretamente no Genba, acompanhando o
funcionamento real das linhas de produção, observando métodos de trabalho e
padrões operacionais que sustentavam aquele ambiente de alta performance.
Essa convivência também se
estendia a momentos informais. Em algumas ocasiões participei de jantares em
família e encontros após o expediente. Situações que revelavam aspectos
culturais importantes que dificilmente aparecem em manuais corporativos.
Entre tantas experiências, uma
situação marcou profundamente minha forma de enxergar a engenharia e a
liderança industrial. Em determinado momento, um diretor coreano me pediu para
assumir temporariamente o posto de um operador em uma linha de montagem. Em
seguida, fui direcionado para operar uma máquina de SMT (Surface Mount
Technology) dentro do processo produtivo.
Minha primeira reação foi de
constrangimento. Eu estava ali como líder em processo de capacitação
tecnológica e não imaginava ocupar diretamente um posto operacional. No
entanto, com o passar do tempo compreendi a profundidade daquela decisão.
Na prática, aquele diretor
estava me ensinando uma das lições mais importantes da gestão industrial. Na
prática, aprendi que antes de projetar processos ou propor melhorias, é
fundamental compreender plenamente a realidade de quem executa o trabalho.
Muitas vezes, engenheiros e
desenvolvedores criam processos e produtos altamente sofisticados, mas
distantes da realidade operacional do usuário. Quando essas soluções chegam ao
usuário, geralmente causam dificuldades, retrabalhos e insatisfação para quem
está diretamente envolvido na operação.
No fim, aquela experiência
mudou definitivamente minha forma de pensar a engenharia e a gestão industrial.
Com o tempo percebi que boas soluções raramente nascem apenas em reuniões ou
análises teóricas. Elas surgem quando conhecimento técnico, observação direta e
respeito pelo trabalho real se encontram no mesmo espaço.
