O sinal estava diante de mim. Eu simplesmente não enxerguei.
Ontem, fui ao supermercado com minha esposa. Enquanto procurávamos os itens da lista, em duas situações ela parou diante de alguns produtos e comentou que eram muito bons, que eram uma delícia. Eu ouvi, entendi literalmente e seguimos adiante. Não compramos os produtos e continuamos até o caixa.
Quando já estávamos prontos para pagar, ela me falou baixinho que quando uma mulher diz ao esposo que algo é bom, bonito ou gostoso, muitas vezes está sinalizando que gostaria que ele tomasse a iniciativa e comprasse, sem precisar pedir. Foi então que percebi que havia uma mensagem por trás daquelas palavras que não havia captado.
Aquilo havia acontecido duas vezes. Eu estava presente, ouvi, mas não compreendi a intenção. Voltamos aos corredores, pegamos os dois produtos e retornamos ao caixa. Depois fomos para casa sorrindo daquela situação.
O episódio ficou na minha cabeça porque, no ambiente profissional, ensino e aplico a importância de observar processos, identificar anomalias, interpretar indicadores e reconhecer situações que possam antecipar problemas. É curioso perceber que podemos dominar determinado conhecimento e, ainda assim, deixar passar algo semelhante em outro contexto.
Nas organizações, isso acontece diariamente. Um cliente faz um comentário, um operador menciona uma dificuldade, um colaborador muda seu comportamento, um indicador apresenta uma alteração ou surge uma não conformidade. Isoladamente, podem parecer pouco relevantes. Em contexto, podem revelar que algo está mudando.
O desafio está em compreender essas manifestações antes que se transformem em consequências. Muitas organizações só reagem quando o problema já está evidente, quando o cliente reclama, o equipamento para, o retrabalho aumenta ou o conflito se instala. Nesse momento, a resposta tende a ser mais complexa.
Uma liderança atenta precisa desenvolver essa percepção. Isso envolve dados, mas também escuta, experiência e contexto. Nem sempre precisamos de mais informação. Muitas vezes, precisamos interpretar melhor aquilo que já temos.
A experiência do supermercado me lembrou disso de forma simples e bem-humorada. Naquele dia, o profissional sênior que ensina sobre percepção de sinais não percebeu os sinais da própria esposa. Felizmente, ela explicou, eu voltei, peguei os produtos e nós terminamos a história sorrindo.
Talvez essa seja uma boa lembrança para levar ao trabalho. Podemos conhecer métodos, dominar ferramentas e ensinar conceitos, mas continuamos sujeitos aos nossos próprios pontos cegos. Por isso, vale a pena olhar novamente, ouvir com atenção e perguntar o que determinada situação está tentando nos mostrar.
Porque, quando o problema finalmente se torna evidente, muitas vezes já não estamos mais diante de um sinal. Estamos diante da consequência.
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