terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A "Estética dos Dados" vs. a Realidade Operacional


 

A "estética dos dados" vs. a realidade operacional.

Certa vez, assessorando a governança de uma empresa, me deparei com um cenário que, à primeira vista, parecia absolutamente normal. Os dashboards de manutenção exibiam gráficos organizados, séries históricas estáveis e indicadores bem distribuídos entre manutenção preventiva e corretiva. Havia números, padrões e uma sensação de controle. Entretanto, algo não fechava. Ao observar os dados ao longo do tempo, percebi que tanto os custos quanto as horas paradas cresciam de forma contínua, independentemente do suposto investimento em prevenção.

Com uma análise mais cuidadosa, notei um comportamento curioso. Em vários meses, os valores simplesmente se repetiam. As barras eram quase idênticas, a variabilidade mínima, os desvios irrelevantes. Para quem conhece operações reais, isso é um forte sinal de alerta. Processos vivos variam, sofrem interferências, apresentam ruído e não se comportam como sistemas lineares e previsíveis. A dúvida deixou de ser se os números estavam bons e passou a ser se aqueles números representavam, de fato, a realidade.

Diante disso, decidi sair do dashboard e ir para a operação. Fui entender a origem dos dados, a lógica de classificação e a rotina de registro das ordens de serviço. E foi nesse ponto que a narrativa começou a ruir. Na prática, não existiam atividades estruturadas de manutenção preventiva. O que existia era a reclassificação das mesmas ações corretivas sob rótulos diferentes. As paradas emergenciais eram registradas como preventivas, os custos reativos eram redistribuídos e o sistema gerava automaticamente dois gráficos distintos a partir da mesma base de dados.

O indicador existia, mas o processo não. O nome sugeria antecipação, planejamento e controle, enquanto a realidade era reação, improviso e repetição de falhas. O KPI não estava matematicamente errado, mas semanticamente falso. Ele comunicava desempenho, quando escondia fragilidade. Mais do que um problema técnico, era um problema cultural. Os indicadores não estavam sendo usados para aprender, mas para sustentar uma narrativa confortável.

No fim, fica uma reflexão inevitável. Indicadores devem ser instrumentos de diagnóstico, não de autoproteção. Eles devem expor falhas, provocar perguntas e orientar decisões difíceis. Quando a organização passa a preferir gráficos bonitos (estética) a processos reais, o problema deixa de ser de dados e passa a ser de governança.