Nos últimos anos, é cada vez mais comum ouvir que o Brasil vive um apagão de mão de obra. Empresas de diferentes setores relatam dificuldade em contratar engenheiros, tecnólogos e profissionais das áreas STEM, enquanto em outras formações a oferta ainda supera a demanda. Esse descompasso vai além da economia e reflete falhas estruturais ligadas à educação, à cultura e à valorização profissional.
Nesse contexto, observa-se que
o sistema educacional brasileiro ainda prepara jovens para o passado.
Currículos excessivamente teóricos estimulam a memorização e sendo pouco
conectados à realidade tecnológica e produtiva. O resultado é uma falha no
desenvolvimento do pensamento crítico e da capacidade de resolver problemas
reais, competências essenciais nas ciências e engenharias. Como consequência,
muitos estudantes desistem durante a formação e outros sequer consideram essas
áreas como caminho de carreira.
Além disso, a desvalorização
profissional agrava ainda mais o cenário, exemplo de um engenheiro e médico
recém-formados. Ambos iniciam suas trajetórias após longos anos de estudo e
grande responsabilidade técnica, mas recebem reconhecimentos distintos. A
medicina é cultural e financeiramente valorizada, enquanto a engenharia ainda
enfrenta baixos salários e menor prestígio social, mesmo sendo vital para a
infraestrutura, a tecnologia e a competitividade nacional. Vale ressaltar que
essa diferença não é apenas econômica, mas revela a realidade na forma como o
país enxerga as áreas técnicas e científicas.
Somado a isso, a situação é
ainda mais sensível entre mestres e doutores. Profissionais altamente
qualificados, que deveriam impulsionar a inovação e a pesquisa aplicada,
enfrentam condições salariais limitadas e pouco reconhecimento. Vejam que em
outros países, eles são disputados por empresas e centros de pesquisa. Porém,
no Brasil, enfrentam a desvalorização. O resultado desse cenário é a fuga
silenciosa de talentos, enfraquecendo a capacidade do Brasil de transformar
conhecimento em valor econômico e social.
Diante desse imbróglio
educacional e mercadológico, é fundamental compreender que o apagão de mão de
obra não decorre apenas da falta de qualificação, mas também da falta de
valorização de quem já está qualificado. Portanto, é necessário fortalecer a
pesquisa, a inovação e ainda adotar políticas que coloquem as profissões STEM
no centro da estratégia nacional de desenvolvimento. É importante reconhecer
que somente o investimento consistente em educação técnica, científica e
tecnológica será possível avançar na transformação digital, na sustentabilidade
e na indústria 4.0. Valorizar engenheiros, cientistas, tecnólogos, mestres e
doutores é reconhecer que o futuro do país depende de quem transforma
conhecimento em progresso.
