terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Divergências entre o Estoque Físico e o Sistema


 

Nesta semana, entrei na drogaria para comprar um remédio simples. Ao solicitar o produto, a atendente fez o procedimento padrão, consultou o sistema, confirmou o saldo disponível e seguiu para buscar o item. Minutos depois, voltou com uma frase curta, mas carregada de significado: "Desculpe! No sistema tem, mas fisicamente não encontramos."

Essa cena, comum no varejo, é quase um espelho do que acontece diariamente na logística industrial. Essa falha tem até nome técnico e se chama 'Estoque Fantasma'. Neste caso, o sistema diz que o produto existe, o algoritmo de reposição não dispara a compra (porque "vê" saldo), e a ruptura acontece silenciosamente.

Infelizmente, no intervalo entre a tela e a prateleira, nasce um dos maiores inimigos da eficiência operacional. Quando o estoque não é confiável, toda a cadeia sente. O planejamento de compras se baseia em números que não existem, a produção toma decisões equivocadas e o capital de giro fica imobilizado. O sistema promete e a operação não entrega.

O mais curioso é que esse erro raramente nasce no ponto de venda. Ele obedece ao velho princípio da computação GIGO (Garbage In, Garbage Out) que, se entra lixo de informação, sai lixo de decisão. Geralmente, o problema se constrói na entrada mal registrada, na separação sem conferência e nas perdas não contabilizadas. São pequenas falhas diárias que, somadas, criam grandes distorções.

Neste contexto, aqui surge uma reflexão importante: A tecnologia sem disciplina apenas automatiza o erro. Sendo assim, implementar um WMS de ponta sobre um processo ruim apenas fará você errar com mais velocidade e em maior escala. Vale destacar que a verdadeira maturidade logística acontece quando abandonamos a ideia do inventário como um evento traumático anual "para cumprir tabela" e adotamos a contagem cíclica. É quando transformamos a acuracidade em hábito diário, não em um susto no fim do ano.

No fim das contas, o que queremos é a garantia de que o físico e o sistema falem a mesma língua. Seja numa drogaria de bairro ou numa planta industrial complexa, estoque não é apenas um número no ERP. Estoque é confiança. E confiança, uma vez quebrada, custa caro para ser reconstruída.