terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O Erro Raramente Nasce de uma Ação Isolada


 

Ao longo da minha trajetória atuando com excelência operacional, processos e transformação digital, percebi que o erro raramente nasce de uma ação isolada. Normalmente, é o ponto visível de uma cadeia de fragilidades que se estende por cultura, liderança, método, comunicação e disciplina operacional.

É comum ouvirmos que errar faz parte da natureza humana. No entanto, quando observamos ambientes críticos, percebemos que essa frase, sozinha, não dá conta da complexidade real. Uma máquina que quebra devido à falta de manutenção preventiva, por exemplo, não representa apenas um deslize operacional. Na maioria das vezes, é o reflexo de um processo não padronizado, de uma rotina mal gerida, de uma supervisão que não acompanhou ou de uma cultura que tolera desvios. O mesmo vale para linhas inteiras de produção afetadas por erros simples, como a alimentação incorreta de um componente, que se transformam em retrabalhos, refugos e perda de eficiência.

Em setores de alto risco, essa verdade ganha proporções ainda maiores. Na medicina, um erro não é um simples equívoco. Trata-se de um evento sentinela que exige investigação e ação profunda. Na aviação, uma falha não se explica apenas pelo fator humano. Ela é analisada dentro de uma lógica sistêmica que considera tecnologia, comunicação, treinamento, fadiga e protocolos que devem ser obedecidos. Nesse contexto, a lógica é simples e poderosa. O humano erra, mas o sistema não pode permitir que o erro o leve ao ponto de não retorno.

Mesmo em empresas que investem milhões em automação, sensores, sistemas avançados e inteligência artificial, o erro continua existindo. Isso acontece porque a tecnologia reduz a probabilidade, mas não elimina o erro do comportamento humano. Configuração incorreta, interpretação equivocada, parâmetros mal definidos, ausência de verificação cruzada e complacência com o sistema são elementos que surgem justamente quando a automação não vem acompanhada de disciplina operacional.

O ponto central é que o erro não é, em essência, o problema. O verdadeiro problema é a incapacidade de aprender com ele, de criar barreiras, de fortalecer processos e de implantar uma cultura que não romantize falhas, mas que também não criminalize o indivíduo. Ambientes de alta maturidade entendem que o erro é informação. Ele revela onde o sistema é frágil, onde o método falha, onde a rotina não flui e onde o comportamento não encontra sustentação.

Por isso, organizações que buscam excelência precisam enxergar o erro sob uma ótica madura e técnica. Devem usar dados, padrões, ciclos de melhoria, mecanismos de feedback, treinamentos dinâmicos, redundâncias e práticas preventivas. Portanto, devem investir em cultura de segurança, de responsabilidade compartilhada e de desenvolvimento contínuo.