No lugar errado, todo o potencial tende a se tornar irrelevante, não por ausência de competência, mas por falha estrutural do sistema que deveria sustentar o desempenho. O caso de Endrick evidencia com clareza esse fenômeno ao revelar que talento, investimento e expectativa não são suficientes quando o ambiente de gestão não oferece condições reais de desenvolvimento, continuidade e protagonismo. O problema central não está no indivíduo, mas na lógica organizacional que define como, quando e para que esse talento é utilizado.
Nesse contexto, torna-se
evidente que performance é sempre um produto do ecossistema. Mesmo jogadores
tecnicamente acima da média dependem de fatores como estratégia de uso, modelo
de liderança, maturidade institucional e alinhamento entre planejamento e
execução. Quando essas variáveis não convergem, o resultado natural é a
subutilização, a perda de ritmo competitivo e o comprometimento da curva de
aprendizagem. O erro de gestão não se manifesta apenas na ausência de minutos
em campo, mas na ruptura entre potencial projetado e experiência prática
necessária para consolidar a alta performance.
O paralelo com o ambiente
profissional público e privado é direto e inevitável. Organizações
frequentemente contratam pessoas altamente qualificadas, com histórico sólido e
capacidade comprovada, mas as inserem em estruturas disfuncionais, com
processos frágeis, liderança imatura, assédio moral instalado, omissão,
coalisões políticas e objetivos mal definidos. Nesse cenário, o capital humano
deixa de ser ativo estratégico e passa a ser apenas um recurso mal alocado,
gerando frustração individual, queda de engajamento e baixa entrega sistêmica.
Assim como no futebol,
empresas e instituições não perdem talentos apenas por falta de competência,
mas principalmente por erros de arquitetura organizacional. Quando o contexto
não favorece autonomia, aprendizado contínuo, feedback qualificado e espaço para
tomada de decisão, o profissional entra em modo de sobrevivência e não de
performance. O resultado é a ilusão de baixa capacidade, quando na verdade o
que existe é um ambiente incapaz de transformar potencial em valor real.
O caso de Endrick, portanto,
não é uma exceção esportiva, mas um retrato fiel de um problema recorrente de
gestão. Colocar pessoas certas em estruturas erradas é uma das formas mais
sofisticadas de desperdício de talento, pois o sistema falha silenciosamente
enquanto atribui ao indivíduo a responsabilidade por um fracasso que, na
essência, é organizacional.
