Quando a tecnologia não evita
o óbvio: lições do caso Grupo Mateus para a Gestão de Estoques na era 4.0.
A recente revisão bilionária nos estoques do Grupo Mateus abriu um debate essencial: como erros dessa magnitude ainda acontecem em plena era da digitalização, da inteligência artificial e da Indústria 4.0? A resposta começa pelo constante alerta que faço aqui no LinkedIn. É a compreensão de que a tecnologia não substitui a governança. O fato é que sistemas avançados apenas registram o que a organização faz. Portanto, a tecnologia não corrige processos frágeis, parâmetros incorretos ou auditorias ineficientes.
Ao analisarmos o caso,
percebemos que crescimento acelerado, fusões e expansão geográfica ampliam a
complexidade operacional e exigem ainda mais disciplina nos controles dos
processos. Quando essa disciplina não acompanha o ritmo da expansão, os
estoques viram terreno fértil para divergências. Por isso, inventários
rotativos, conferências físicas frequentes e conciliações entre o estoque
contábil e o físico deixam de ser boas práticas e se tornam mecanismos
obrigatórios de prevenção.
Essa reflexão se aprofunda
quando observamos que muitos negócios adotam tecnologias de ponta, mas
continuam operando com processos desconectados e uma cultura analítica pouco
madura. É o fenômeno da digitalização sem transformação, no qual o ERP, o WMS, o
RFID e a automação aleatória coexistem com cadastros desatualizados,
lançamentos manuais e parâmetros mal definidos. Nesse cenário, a confiança
excessiva no sistema cria uma falsa sensação de controle e mascara riscos que
crescem de forma silenciosa.
Além disso, a falta de
integração ponta a ponta entre compras, recebimento, armazenagem, vendas e
contabilidade abre espaços para erros que a tecnologia não consegue compensar.
Quando os indicadores de acuracidade, perdas e giro deixam de ser monitorados
com rigor, os desvios se acumulam até se tornarem inevitáveis. Assim, a
tecnologia continua moderna, mas os dados permanecem imprecisos, e qualquer
prática automatizada apenas replica e amplia o erro com mais velocidade.
O caso Mateus reforça uma
verdade incômoda: não há Indústria 4.0 sem cultura, processo e governança.
Acuracidade depende menos do software e mais da capacidade da organização de
sustentar rotinas, auditar continuamente, treinar equipes e tomar decisões baseadas
em fatos. A tecnologia só entrega valor quando encontra uma base sólida. Caso
contrário, ela apenas amplifica o problema.
Em síntese, a principal lição
é clara: o sucesso na gestão de estoques não nasce da soma de tecnologias, mas
do equilíbrio entre pessoas, processos e dados confiáveis. Empresas que
compreendem essa lógica constroem resiliência operacional. As que ignoram pagam
caro para aprender.
