terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Lições do caso Grupo Mateus para a Gestão de Estoques na era 4.0

 


Quando a tecnologia não evita o óbvio: lições do caso Grupo Mateus para a Gestão de Estoques na era 4.0.

A recente revisão bilionária nos estoques do Grupo Mateus abriu um debate essencial: como erros dessa magnitude ainda acontecem em plena era da digitalização, da inteligência artificial e da Indústria 4.0? A resposta começa pelo constante alerta que faço aqui no LinkedIn. É a compreensão de que a tecnologia não substitui a governança. O fato é que sistemas avançados apenas registram o que a organização faz. Portanto, a tecnologia não corrige processos frágeis, parâmetros incorretos ou auditorias ineficientes.

Ao analisarmos o caso, percebemos que crescimento acelerado, fusões e expansão geográfica ampliam a complexidade operacional e exigem ainda mais disciplina nos controles dos processos. Quando essa disciplina não acompanha o ritmo da expansão, os estoques viram terreno fértil para divergências. Por isso, inventários rotativos, conferências físicas frequentes e conciliações entre o estoque contábil e o físico deixam de ser boas práticas e se tornam mecanismos obrigatórios de prevenção.

Essa reflexão se aprofunda quando observamos que muitos negócios adotam tecnologias de ponta, mas continuam operando com processos desconectados e uma cultura analítica pouco madura. É o fenômeno da digitalização sem transformação, no qual o ERP, o WMS, o RFID e a automação aleatória coexistem com cadastros desatualizados, lançamentos manuais e parâmetros mal definidos. Nesse cenário, a confiança excessiva no sistema cria uma falsa sensação de controle e mascara riscos que crescem de forma silenciosa.

Além disso, a falta de integração ponta a ponta entre compras, recebimento, armazenagem, vendas e contabilidade abre espaços para erros que a tecnologia não consegue compensar. Quando os indicadores de acuracidade, perdas e giro deixam de ser monitorados com rigor, os desvios se acumulam até se tornarem inevitáveis. Assim, a tecnologia continua moderna, mas os dados permanecem imprecisos, e qualquer prática automatizada apenas replica e amplia o erro com mais velocidade.

O caso Mateus reforça uma verdade incômoda: não há Indústria 4.0 sem cultura, processo e governança. Acuracidade depende menos do software e mais da capacidade da organização de sustentar rotinas, auditar continuamente, treinar equipes e tomar decisões baseadas em fatos. A tecnologia só entrega valor quando encontra uma base sólida. Caso contrário, ela apenas amplifica o problema.

Em síntese, a principal lição é clara: o sucesso na gestão de estoques não nasce da soma de tecnologias, mas do equilíbrio entre pessoas, processos e dados confiáveis. Empresas que compreendem essa lógica constroem resiliência operacional. As que ignoram pagam caro para aprender.